A possível utopia
Mário Sério Cortella (Um Grande Pensador)

Não existe paz individual e solitária; não existe um ser humano sem os outros.
Violência. Não dá para não pensar sobre isso, e, pior, a preocupação vem emergindo nestes anos como uma aparentemente invencível fatalidade. É imprescindível não invisibilizar o assunto no interior das escolas, pois, hoje, violência não é mero "tema transversal". Por isso, há três anos fiz uma reflexão na revista Linha Direta, da qual, pela triste atualidade, recupero agora um trecho.
"A violência é tema aterrorizante em nosso cotidiano; poucos deixam de ter alguma experiência (própria ou próxima) com ela, sejam os assaltos e latrocínios, sejam os seqüestros (relâmpagos ou não) e as ameaças à integridade física e patrimonial, nas casas, escolas e ruas. A mídia se refestela; mesmo levando em conta sua tarefa de informar e alertar, é preciso lembrar que há tempos não havia um assunto tão sedutor. Violência é notícia; má notícia, mas, infelizmente, e, por isso mesmo, mais atraente. A mórbida relação pânico–salvação (fundamento, também, de algumas religiões e vários partidos políticos liberticidas) invadiu as preocupações da população; mostra-se o fato, instaura-se o pânico, anuncia-se a salvação.
Diagnóstico mais comum para a situação? Falta de firmeza e excesso de impunidade. Terapias recomendadas (algumas delirantes, outras demagógicas e, muitas, equivocadas): pena de morte, presídios em profusão, truculência policial, abrigos de ‘segurança máxima’ para menores, diminuição da maioridade penal etc. Ora, todas as formas de violência mencionadas precisam ser combatidas e extintas; são inaceitáveis e merecem urgência no enfrentamento de suas causas e na prevenção de seus efeitos. Porém, não são as únicas, não estão sozinhas; as demais (e as há em grande quantidade) são obscurecidas por aquelas que vêm tendo destaque exclusivista. Essas outras violências (contra os corpos e as mentes) favorecem (mas não tornam justas) as que estão em evidência."
No mesmo ano, outra reflexão, na revista Família Cristã: "Quem já não disse (às vezes silenciosamente) ou, até, bradou em alta voz: Paz! Eu quero paz; quero ficar em paz. Eu só queria um pouquinho de paz!? Porém, não existe paz individual e solitária; não existe um humano sem os outros. Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que a minha liberdade acaba quando começa a do outro. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre.
Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre. Por isso, é preciso que à paz (para que ela se efetive) se acresça a justiça. E o que é justiça? É todos e todas terem paz." Essa utopia ainda vale? Precisa valer.
Mario Sergio Cortella é filósofo, mestre e doutor em Educação pela PUC-SP, onde também é professor-titular. Autor de vários livros, como "A Escola e o Conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos", "Nos Labirintos da Moral, com Yves de La Taille", "Não Espere Pelo Epitáfio: Provocações Filosóficas", "Não Nascemos Prontos!", "Sobre a Esperança: Diálogo, com Frei Betto", "O que é a Pergunta?, com Silmara Casadei", "Liderança em Foco, com Eugênio Mussak", "Filosofia e Ensino Médio: certos porquês, alguns senões, uma proposta" e, o mais recente, 0" Qual é a tua Obra? Inquietações Propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética".
